domingo, 21 de setembro de 2008

Chuva

A chuva cai forte e vingativa,
cai lavando a minha alma,
tão baixa, tão tênue, tão, agora,
sem asa, sem sal, em estranha calma.

Uma fluída sensação percorre
o meu corpo, quando sinto
essa chuva vingando no pátio,
nas pedras, nos muros, nas árvores.
Forte, inviolável, escorrendo
nas calhas, veias da minh’alma.

É uma sinfonia que molha meu teto,
e cai no meu travesseiro pela invisível
goteira, e entra em meu quarto sorrateira.
E, também, sorrateiramente em mim.
Refazendo-me em água renascida.
Em recriação uterina de afeto.

Eu sinto essa chuva.
Eu a vivo intensamente em minha,
hoje, arredia e transpassada alma.
Mas mesmo assim nada mais me interessa.
Pois homens e ânimas não valem a chuva.
São velas presunçosas que envergam,
se encharcam e quebram inúteis.
Suas imagens e faces escorrem por terra, sujas.
Mas a chuva não. A chuva continua indelével
e vingativa.

Roberto Corrêa Gomes
Porto Alegre, setembro de 2008

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